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Quando o Cuidado Vira Compensação

  • 9 de mai.
  • 2 min de leitura

Onde não há implicação, meu cuidado deixa de ser amor e passa a ser compensação.


Há uma forma de amor que alimenta.

Há uma forma de amor que sustenta.

Há uma forma de amor que permanece quando tudo parece ruir.


Muitas mães conhecem esse lugar.


O lugar de fazer mais um pouco.

Esperar mais um pouco.

Suportar mais um pouco.

Compreender mais um pouco.

Perdoar mais um pouco.

Resolver mais um pouco.


Até que, sem perceber, o cuidado deixa de ser apenas expressão de amor — e passa a ocupar o lugar daquilo que o outro não assume.


A mãe cozinha, limpa, orienta, protege, antecipa, interpreta sinais, prevê riscos, tenta evitar quedas.


Mas chega um ponto em que amar também exige uma pergunta difícil:

isso ainda é cuidado ou já se tornou compensação?


Porque quando uma mãe se responsabiliza por tudo, algo se desorganiza.


O filho não amadurece.

O adulto não se implica.

A casa não se distribui.

A culpa se instala.

E o amor, que deveria circular, começa a pesar sobre um único corpo.


Há mães que não sofrem por falta de amor.

Sofrem por excesso de função.


Carregam o que não lhes pertence.

Respondem pelo que não causaram.

Tentam proteger até da consequência necessária.

E, em nome do amor, acabam adiando o encontro do outro com a própria responsabilidade.


Mas amor não é apagar-se para que o outro permaneça infantil.


Amor não é sustentar indefinidamente a parte que o outro se recusa a ocupar.


Amor também é limite.

Também é diferenciação.

Também é dizer:

eu posso te amar, mas não posso viver por você.


Talvez uma das tarefas mais difíceis da maternidade seja esta:

continuar amando sem continuar compensando.


Cuidar sem substituir.

Orientar sem controlar.

Proteger sem impedir toda queda.

Permanecer sem se perder.


Porque uma mãe também tem alma.

Também tem corpo.

Também tem cansaço.

Também tem destino.

Também tem uma vida que não pode ser inteiramente consumida pela desimplicação dos outros.


Neste Dia das Mães, talvez a homenagem mais verdadeira não seja apenas agradecer às mães por tudo o que fizeram.


Talvez seja reconhecer também tudo aquilo que elas não deveriam ter precisado fazer sozinhas.


E talvez seja lembrar:

onde há amor, deve haver encontro.

Onde há vínculo, deve haver responsabilidade.

Onde há cuidado, deve haver reciprocidade possível.


Porque, onde não há implicação, o cuidado deixa de ser amor — e passa a ser compensação.

 
 
 

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Trabalho clínico e formação orientados por uma visão estrutural, simbólica e evolucionista do ser humano.

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