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O Preconceito na Saúde

1 de mai.
4 min de leitura

Atualizado: 5 de mai.

O preconceito se infiltrou na saúde de modo quase imperceptível.


Ele aparece quando uma área do conhecimento, em vez de abrir uma investigação, fecha o sentido de uma doença em uma única causa.


Podemos perceber isso em afirmações como:

“Ele adoeceu por causa de energias negativas.”

“Ela adoeceu por causa de emoções reprimidas.”

“Ele adoeceu por causa da genética.”

“Ela adoeceu por bloqueio do Qi.”

“Ele adoeceu por disfunções metabólicas e bioquímicas.”


À primeira vista, essas frases parecem explicações.

Mas, muitas vezes, elas funcionam como sentenças.


O problema não está em reconhecer que fatores espirituais, emocionais, genéticos, energéticos, bioquímicos ou metabólicos possam participar de um processo de adoecimento.


O problema está na unilateralidade.


Cada campo observa a realidade a partir de sua própria lente. E isso é legítimo. Uma ciência, uma tradição terapêutica ou uma clínica se aprofundam justamente porque dedicam anos, décadas ou séculos ao estudo de determinado aspecto da vida.


A biologia vê processos materiais.

A genética observa heranças, predisposições e mutações.

A medicina chinesa acompanha a circulação do Qi, os desequilíbrios entre os reinos, os órgãos, as substâncias e os fatores patogênicos.

A psicologia profunda investiga imagens, complexos, traumas, defesas, repetições e estruturas psíquicas.


Cada lente vê algo.

Nenhuma lente vê tudo.


E é justamente aqui que o preconceito entra: quando o profissional confunde a parte que enxerga com a totalidade do real.


Ainda que tenhamos avançado muito com a chamada medicina integrativa e com as terapias integrativas, ainda estamos longe de uma visão realmente abrangente. Em muitos contextos, a integração permanece mais como um discurso do que como uma prática profunda de investigação.


Porque integrar não é apenas juntar técnicas.

Integrar exige suportar a complexidade.


Exige reconhecer que uma doença pode envolver corpo, história, herança, ambiente, psiquismo, relações, estilo de vida, destino biológico, fatores energéticos e condições sociais.


O adoecimento humano raramente cabe em uma única explicação.


O problema se agrava quando o profissional é tomado por aquilo que poderíamos chamar de síndrome da autoridade.


Isso acontece quando ele deixa de investigar e passa a sentenciar.


Quando interpreta rápido demais.

Quando transforma sua teoria em diagnóstico fechado.

Quando usa sua linguagem técnica para encerrar a pergunta, em vez de ampliá-la.


Nesse ponto, a explicação deixa de ser clínica.

Ela se torna preconceito.


A visão do Método Psimbolom


Na perspectiva que venho desenvolvendo no Método Psimbolom, uma doença pode ser compreendida como resultado de múltiplas influências.


Ela pode envolver predisposições ancestrais, estruturas psíquicas, padrões emocionais, organização energética, condições biológicas, hábitos, ambiente, relações e acontecimentos concretos da vida.


Como terapeuta de Medicina Chinesa há treze anos, reconheço a importância de uma visão que não separa radicalmente corpo e psiquismo.


Na Medicina Chinesa, antes da manifestação densa de muitos processos de adoecimento, podem surgir alterações mais sutis: mudanças no estado psíquico, no espírito do órgão, na dinâmica do reino, na circulação do Qi, no sangue, nos líquidos, no Jing e na relação entre os sistemas internos.


Antes da doença se tornar plenamente visível no corpo, muitas vezes algo já se moveu em um campo mais sutil da experiência.


Depois, os sintomas podem se organizar e progredir.

Aquilo que começa como desarmonia pode seguir um percurso interno, muitas vezes preciso, que pode ser observado, acompanhado e tratado.


Essa é uma sabedoria milenar.

Mas também aqui é preciso cuidado.


Se a Medicina Chinesa reduz tudo ao Qi, ela também se torna unilateral.

Se a biologia reduz tudo à bioquímica, ela se torna unilateral.

Se a psicologia reduz tudo às emoções, ela se torna unilateral.

Se a espiritualidade reduz tudo à energia negativa, ela se torna unilateral.

A questão não é escolher uma explicação contra a outra.


A questão é perguntar:

Como este processo se organizou neste sujeito?

Que fatores participaram?

O que pertence ao corpo?

O que pertence à história?

O que pertence à ancestralidade?

O que pertence ao ambiente?

O que pertence à estrutura psíquica?

O que está tentando ser visto através do sintoma?


Segundo a Medicina Chinesa, todos nós nascemos com predisposições. Nosso corpo é gestado a partir de um óvulo e de um espermatozoide, que carregam não apenas traços genéticos das gerações anteriores, mas também uma determinada qualidade de energia ancestral.


Na linguagem da Medicina Chinesa, falamos de Jing, de Qi ancestral, de constituição, de herança vital.


Essa visão não se limita à genética, porque considera que há uma dimensão sutil anterior à expressão material do corpo biológico.


A energia ancestral está para a Medicina Chinesa como o inconsciente está para a Psicologia Profunda: um campo anterior ao eu, anterior à consciência, anterior àquilo que o sujeito consegue dizer sobre si mesmo.

É um a priori.


Não começamos do zero.

Chegamos à vida já atravessados por marcas, tendências, forças, vulnerabilidades e potenciais que nos antecedem.


Aqui surge um ponto de convergência entre a Medicina Chinesa e a Psicologia Profunda: ambas reconhecem que o sujeito não nasce isolado de sua ancestralidade.


Há algo anterior que participa da formação do corpo, da psique e da maneira como cada um habita a vida.


A Medicina Chinesa trabalha para equilibrar, tonificar, dispersar, mover, aquecer, resfriar, harmonizar e restaurar a circulação da vida no corpo.


A Psicologia Profunda, por sua vez, permite investigar como a ancestralidade opera simbolicamente no sujeito: nos complexos, nos medos, nas repetições, nas identificações inconscientes, nas lealdades familiares, nos traumas transgeracionais e nas formas de defesa que se organizam muito antes da consciência conseguir nomeá-las.


Em análise, podemos ver a ancestralidade operando.

Vemos isso quando uma pessoa repete destinos que não escolheu.


Quando carrega culpas que não começaram nela.

Quando vive sintomas que parecem ter raízes mais antigas do que sua própria biografia.

Quando ama, teme, se defende, se cala ou se sacrifica de maneiras que pertencem não apenas à sua história pessoal, mas a uma história maior.


Por isso, não basta tratar apenas o sintoma.

Também não basta culpar a genética, a energia, as emoções ou a bioquímica.


É preciso escutar a estrutura.


É preciso compreender como aquele sujeito, naquele corpo, naquela história e naquela linhagem, organizou sua forma de existir.


Se queremos que certas marcas não sejam transmitidas automaticamente às próximas gerações, precisamos trabalhar com os indivíduos no aqui e agora.


A forma de cuidar do futuro não é abstrata.


Ela começa quando alguém decide interromper a repetição em si.


A análise, nesse sentido, não é apenas um processo individual.

Ela é também um ato de responsabilidade diante da vida que continua.

Porque aquilo que não é elaborado tende a se repetir.

E aquilo que é atravessado com consciência pode, finalmente, encontrar outro destino.

 
 
 

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Trabalho clínico e formação orientados por uma visão estrutural, simbólica e evolucionista do ser humano.

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