top of page
Buscar

Nossas Três Mães

  • 10 de mai.
  • 4 min de leitura
dia das mães - maternagem
dia das mães - maternagem

Todos nós temos, em alguma medida, três mães atuando em nossa vida psíquica.


Nem sempre percebemos isso, porque costumamos pensar na mãe apenas como uma pessoa concreta: aquela que nos gerou, criou, cuidou — ou não cuidou.


Mas, na profundidade da psique, a experiência materna não se limita à mãe biológica. Ela se organiza em camadas. E essas camadas continuam operando em nós, muitas vezes de forma inconsciente, influenciando escolhas, vínculos, medos, desejos, recusas e repetições.


Podemos pensar, então, em três mães.


A primeira é a mãe arquetípica.


Ela não é uma pessoa. É uma imagem primordial, uma espécie de molde profundo da função materna. É a mãe como princípio de origem, sustentação, acolhimento, nutrição e pertencimento.


Essa mãe arquetípica vive na psique como uma expectativa profunda: a expectativa de encontrar um lugar no mundo onde a vida seja recebida, sustentada e protegida.


É por isso que a experiência com a mãe real nunca é apenas uma experiência pessoal. Ela toca algo muito antigo em nós.


Quando a mãe concreta falha, abandona, invade, rejeita ou não consegue sustentar a criança, não é apenas a relação com aquela mulher que se fere. Algo mais profundo também se rompe: a confiança na possibilidade de ser recebido pela vida.


A segunda é a mãe biológica ou mãe real.


É a mulher concreta que nos gerou — e que pode ou não ter exercido a função de maternagem.


Aqui é importante fazer uma distinção: gerar não é o mesmo que maternar.


Há mães que geram, mas não conseguem cuidar. Há mães presentes fisicamente, mas ausentes emocionalmente. Há mães que oferecem alimento, casa, escola e organização externa, mas não oferecem sustentação afetiva. Há mães que amam, mas não conseguem proteger. Há mães que protegem, mas invadem. Há mães que se sacrificam, mas cobram a vida inteira. Há mães que cuidam, mas não enxergam a singularidade do filho.


E há também mães possíveis: limitadas, humanas, feridas, parciais — mas suficientemente capazes de oferecer uma base mínima de continuidade, presença e confiança.


A mãe real nunca é perfeita. Mas sua função é decisiva.


Porque é a partir da relação com ela — ou com quem ocupou essa função — que uma parte importante da nossa estrutura psíquica começa a se organizar.


A terceira é a mãe interna.


Essa talvez seja a mais silenciosa — e, ao mesmo tempo, uma das mais determinantes.


A mãe interna é a interiorização do tipo de maternagem que recebemos.


Com o tempo, aquilo que veio de fora passa a operar dentro. A forma como fomos acolhidos, rejeitados, sustentados, criticados, invadidos, ignorados ou protegidos vai se tornando uma espécie de voz interna, uma ambiência psíquica, um modo de tratar a si mesmo.


Uma pessoa que recebeu uma maternagem suficientemente boa tende a desenvolver dentro de si alguma capacidade de amparo. Ela pode sofrer, falhar, se perder, mas há algo nela que sabe retornar, cuidar, reorganizar, esperar, acolher os próprios processos.


Mas quando a maternagem foi precária, intrusiva, instável ou ausente, a mãe interna pode se formar de modo ferido.


Ela pode aparecer como uma voz crítica, que nunca deixa a pessoa descansar.

Pode aparecer como um vazio, uma sensação de não ter chão.

Pode aparecer como uma exigência de agradar, cuidar de todos, não incomodar.

Pode aparecer como incapacidade de receber.

Pode aparecer como fome afetiva.

Pode aparecer como autonegligência.

Pode aparecer como uma relação dura com o próprio corpo, com as próprias necessidades e com os próprios limites.


Nesse sentido, a mãe interna não é uma metáfora bonita. Ela é uma estrutura psíquica atuante.


Ela influencia decisões.

Influencia escolhas amorosas.

Influencia o modo como a pessoa trabalha.

Influencia o quanto ela se permite descansar.

Influencia o tipo de cuidado que aceita — ou rejeita.

Influencia até mesmo o que ela chama de amor.


Muitas pessoas não estão apenas buscando uma relação. Estão buscando, sem saber, uma mãe arquetípica que finalmente as receba.


Outras não estão apenas evitando vínculos. Estão tentando se proteger de uma mãe interna que aprendeu que depender é perigoso.


Outras ainda cuidam compulsivamente de todos porque, em algum lugar, continuam tentando reparar a mãe que não pôde cuidar delas.


Por isso, quando falamos da mãe, não estamos falando apenas de biografia.

Estamos falando de estrutura.


A mãe real deixa marcas. A mãe arquetípica deixa uma expectativa profunda.A mãe interna passa a organizar o modo como nos tratamos e como nos deixamos tratar.


E é justamente aí que o trabalho clínico se torna importante.


Não se trata de culpar a mãe. Não se trata de inocentar tudo. Não se trata de transformar a história familiar em sentença.


Trata-se de compreender como essa experiência foi registrada na estrutura psíquica — e como continua atuando.


Porque muitas dores adultas não são apenas dores do presente. São atualizações de uma matriz antiga de cuidado, abandono, invasão ou insuficiência.


Às vezes, a pessoa acredita que escolhe livremente. Mas escolhe a partir da mãe interna que carrega.

Às vezes, acredita que ama. Mas está tentando ser finalmente escolhida.

Às vezes, acredita que é independente. Mas apenas aprendeu a não esperar nada de ninguém.

Às vezes, acredita que é forte. Mas precisou endurecer porque não havia colo.


Reconhecer as três mães é começar a diferenciar essas camadas.


A mãe arquetípica: aquilo que a psique esperava encontrar. A mãe real: aquilo que concretamente foi possível viver. A mãe interna: aquilo que ficou operando dentro.


E quando essas três camadas começam a ser vistas, algo importante pode acontecer: a pessoa deixa de procurar, cegamente, fora de si, aquilo que precisa começar a ser elaborado dentro.


Não porque o vínculo com o outro deixe de importar.

Mas porque nenhuma relação adulta consegue sustentar, sozinha, o peso de uma maternagem arcaica não elaborada.


A análise, nesse sentido, não devolve a mãe que faltou.

Mas pode ajudar a reconhecer a falta, nomear a ferida, diferenciar fantasia e realidade, desfazer repetições e construir uma forma mais consciente de cuidado interno.


Não uma mãe ideal.


Mas uma função interna mais viva, mais lúcida, mais capaz de sustentar a própria existência.

Porque tornar-se mais completo também passa por isso: reconhecer as mães que nos constituíram — e deixar de ser governado por elas sem saber.


Se este texto tocou algo em você, talvez não seja apenas lembrança.

Talvez seja estrutura.


No trabalho clínico do Método Psimbolom, investigamos não apenas os sintomas, mas as imagens, vínculos e padrões internos que sustentam a repetição.


Para conhecer mais sobre essa escuta, acesse a página Mapa da Estrutura Psíquica.


 
 
 

Comentários


Trabalho clínico e formação orientados por uma visão estrutural, simbólica e evolucionista do ser humano.

bottom of page